sexta-feira, 1 de agosto de 2008

. um pouco de poesia (se é que se pode chamar isso aqui de poesia) (...) E agora enquanto podem vocês sorrir seus risos felizes, calmos preparo lágrima por lágrima meu leito a sete palmos onde hei de enterrar angústia e agonia também meus sonhos vida e poesia .

domingo, 20 de julho de 2008

Acordei e vi as coisas velhas na parede morta. E não era um sonho. Apesar da casa nova, reformada, ao abrir os olhos recordei-me daquele dia em que minha mãe entrou na sala quase sem móveis, apenas uns 3 banquinhos, um tapete velho e uma TV pequenina em preto e branco. Naqueles dias de amargo inverno não havia banho quente e a TV pequenina nada mostrava. Era mais uma semana sem dinheiro, sem luz, sem saber quando e se meu pai voltaria para casa. Daquele dia recordo-me de absolutamente tudo, mas a coisa ainda mais marcante aos olhos da criança de 6 anos de idade foram os olhos da mãe. Estávamos meu irmão e eu recortando figuras de jornais velhos, as mãos sujas de tinta preta. Minha mãe entrou bem devagar, sem fazer barulho, como se escondesse alguma coisa. Olhou-nos e sorriu, e embora pareça para mim estranho, tal e qual o estranho que me tornei para ela com o passar dos anos, nunca mais a vi sorrir aquele mesmo sorriso daquele dia frio. Naquela tarde não havia apenas um brilho diferente, havia também calor nos olhos dela. Disse-nos boa tarde ao entrar, e pediu para que sentássemos. Foi só então que percebi como meu corpo tremia de frio. Minha mãe tirou seu próprio casaco e colocou sobre meus ombros para aliviar os tremores. Pausadamente, revelou uma caixinha que trazia escondida às costas. Eu já sabia ler um pouco, mas a mão dela cobria parcialmente as letras impressas na embalagem, de maneira que não me atrevi a tentar adivinhar o que era a surpresa. Pediu então ao meu irmão, dois anos mais velho, para que fosse à cozinha apanhar duas canecas d´água. Em pouco tempo ele retornou, as duas mãos ocupadas por duas canecas de barro, dadas à minha mãe pela minha avó paterna, uma compensação pela noite em que meu pai entrou em casa aos berros e quebrou quase tudo o que encontrou pela frente. Assim como os poucos móveis, foram destruídas também nossas lancheiras e as pequenas garrafas térmicas que usávamos para carregar o chá de capim limão que minha mãe fazia para nós nos dias de frio. Dias depois desse incidente, lembro de minha mãe chorando agarrada à máquina de costura, a única coisa que ela conseguiu salvar quando meu pai novamente apareceu, dessa vez com dois amigos e uma kombi. Entraram, carregaram quase tudo o que tínhamos e levaram embora. Deixaram a máquina de costura, talvez por pena, talvez porque não encontrariam local em que pudessem vendê-la a um bom preço. A TV pequenina também ficou. Pensaram que ela estava estragada, logo, não faria sentido carregar "mais aquele lixo". "Fique com essa merda", disse, abrindo uma lata de cerveja cara. E então deu as costas, e só voltou a aparecer muitos anos depois, como se nada houvesse acontecido, como se as cicatrizes do passado fossem invisíveis no presente. Ele não havia quebrado somente nossa casa, nossas coisas. Em mim ele havia destruído permanentemente um elo de paternidade, de carinho, respeito e confiança. Nas reuniões de pais e mestres da escola, nunca tive pai. Apenas minha mãe comparecia. Minha mãe era - ainda é - mãe e pai. Era ela que me arrumava para as festinhas em casa de colegas da escola, sempre com roupas emprestadas de algum vizinho e ajustadas às pressas na máquina de costura. Sim, era convidado, mas nunca pude levar presentes. Saía antes que começassem a abrir os pacotes. Sempre fiz parte dessas reuniões, sempre estive com eles, mas jamais fui um deles. Ao sair, sempre cedo demais, tinha sempre guardadas na meia duas fichas telefônicas, e era com elas que eu ligava para uma vizinha que, da janela, gritava para avisar minha mãe. Ela largava o que fosse e vinha ao meu encontro. Fazia o mesmo com o meu irmão. Minha mãe sempre foi mãe, a melhor mãe do mundo, sempre esteve acima de qualquer coisa. Meu pai nunca foi ninguém, e quando foi alguma coisa, essa coisa era uma sombra que rondava em volta, faminta. Um fantasma do passado todavia presente, apesar de agora a ausência ser minha. Não lembro dele quando acordo, nem quando vou dormir. Hoje, excepcionalmente, as memórias resgatadas apresentam-se apenas para introduzir o que tenho a dizer. Para ajudar meu irmão, fui à cozinha e, assim como ele, enchi d´água uma caneca, mas não uma caneca de barro, e sim uma velha caneca de alumínio, ainda amassada depois do dia do estrago. Minha mãe sempre disse que a água fica mais fresca quando colocada em canecas de alumínio. Enfim, estávamos nós três ali reunidos, uma expectativa solene, as últimas horas do dia e com elas o despertar de um sonho. Minha mãe revelou a caixinha toda e, como os olhos dela, nossos olhos brilharam e também se encheram de calor. Foram momentos extremamente doces, um lapso de alegria numa vida amarga. Quietos e felizes, contemplamos essas horas. Sabíamos que, como os doces da pequena caixa, as horas doces terminariam e dariam vez à novas e mais duras horas amargas. Não sei ainda a razão disso, mas daquele dia em diante soube que estava preparado para qualquer coisa que me acontecesse. Lembro da minha mãe cozinhando arroz numa leiteira colocada sobre uma lata com álcool, à luz de duas velas. O momento doce não terminara, como pensávamos, quando acabaram os doces da caixa. Apesar do gosto do chocolate ser substituído pelo sal do arroz, a única comida naquela janta, aquele doce mantinha-se em nossos olhos, em nosso pensamento. Quando meu pai novamente retornou, desempregado e doente, não o via mais como pai. Como se fosse um estranho que buscava abrigo, o acolhemos. Em verdade, eles o acolheram. Assim que pude, que tive forças para me desprender de tudo, fui embora. Na mochila pequena, quase nada. Na cabeça, lembrança das horas doces passadas com minha mãe e meu irmão naquele dia frio em que brincávamos de mãos sujas recortando figuras de jornais. Ao passar pela banca em frente à padaria, vi uma caixinha igual à que minha mãe nos trouxe naquele dia. Eu acabara de abandonar minha própria família, por ter comigo uma mágoa que não era compatível com os sonhos deles de ter uma família novamente. Quando saí, nosso "hóspede" apenas disse, sem me olhar nos olhos, que "é possível ter uma família com apenas um casal de filhos, mas nunca sem um pai." Antes mesmo disso, por mais de uma vez chegou a dizer que não tinha filhos. Nunca pude suportar a dor não de não ter um pai, mas a decepção de nunca ser aceito como filho. Agora eu tinha uma irmã que, apesar de muito pequena, chorou na hora em que me despedi. Ela não conseguia entender a razão de eu estar saindo para nunca mais voltar. E talvez nunca entenda... Entreguei o dinheiro ao senhor da banca, apanhei a caixinha de cima da pilha de várias outras caixinhas iguais e fui embora. No meio do caminho para qualquer lugar que fosse, uma mãe com duas crianças pedia dinheiro, comida ou qualquer coisa. Abri a mochila e entreguei para ela a caixinha, e pude ver também felicidade nos olhos deles. Nunca mais os vi. Nunca mais fiz o mesmo caminho novamente. Hoje, quando acordo e dou de frente com as mesmas paredes daqueles dias, paredes iguais, apesar de novas, lembro que agora sou eu o estranho, o que saiu sem previsão de retorno. Lembro das canecas de barro e dos jornais, da caixa de Amanditas, do brilho nos olhos da minha mãe. Lembro das horas doces. Sei que não há no mundo Amanditas suficientes para trazer de volta aquela tarde, aquelas horas. E sei também que, enquanto as horas passam, estou cada vez mais longe, apesar da força que faço para voltar.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

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Tinha tudo pra dar errado, e deu. Sem esperar, sentiu-se aprisionada pelo fruto do descuido. Nos meses que seguiram-se, amaldiçoava cada enjôo, cada nova pequena transformação. "Milagre da vida", diziam os outros, mas para ela era assim apenas porque o milagre não era com eles. Sem saber, daria vida à uma vida infeliz, carregada com uma carga de mágoas ímpares. Sem saber, daria raiva e descrédito a um minúsculo inocente que, se porventura Deus tivesse eliminado, não necessitaria atravessar uma história de provações. Mas, como costumavam e ainda costumam dizer, Ele escreve certo por linhas tortas. Mais um clichê, repetido de maneira hipócrita por aqueles que rezam para pedir perdão por erros que ainda não cometeram.
Cresceu sem acreditar Nele, sem respeitar suas leis e seguir seus conselhos. Obrigado, ia à catequese e, aprendia folheando o pequeno livro laranja, que sofremos uma lavagem cerebral para crer e temer algo que desconhecemos. Aprendia que era preciso, acima de tudo, perdoar, aceitar e, se preciso fosse, oferecer a outra face. Mas até aquela altura já apanhara demais.
Num domingo morto, sentou-se à beira da cama da avó. De frente para a janela do sétimo andar, escutou, embora parecesse a ela distante, com atenção quase solene. Não precisava de uma segunda opinião. Bastava-lhe o discurso entrecortado por lágrimas honestas, causadas pelas palavras cruéis e desalentadoras. Aos poucos principiava entender sua vida, os castigos, as ausências, o olhar sempre atravessado, o afeto descoberto aos poucos e aos trancos. Procurava entender a falta de sorrisos, a mão distante, presente apenas para os outros. Procurava saber cada detalhe, juntava os cacos, montava o quebra-cabeça aos poucos, como se fosse um castigo obrigatório para poder compreender a si mesmo. Mas não entendia como era possível que ela aceitasse de novo aquele que tanta dor e decepção causou, e fosse simplesmente incapaz de olhar-me com reais olhos de mãe. E, apesar de tudo, depois de conhecer suas razões, mesmo sem aceitá-las, ainda sou capaz de olhá-la não com raiva, mas com os olhos de quem cresceu para entender que o que vale é resgatar as horas em que tudo parecia perfeito, ou que tudo realmente era perfeito. Ainda lembro da tarde gelada, do presente escondido, das roupas reformadas, dos caderninhos feitos de propaganda política... ainda lembro e sempre lembrarei dos momentos em que fui aceito como um filho, e não como um momento ruim que quase tirou-lhe a vida. Sei que jamais poderei pedir desculpas por ter nascido, e para que nada ruim tivesse acontecido eu deveria não existir. E se assim fosse, talvez a vida deles fosse diferente, fosse, quem sabe, melhor. Se posso hoje desculpar-me por algo, é apenas pelo fato de, infelizmente, não poder aceitar a covardia alheia, a inércia que permite que as coisas ruins permaneçam da forma como estão. Cresci de uma forma bruta, e estou aprendendo, com o tempo, a entender as limitações, minhas e dos outros, e conviver com elas sem tratá-las com desprezo, sem tratá-las como fraquezas. De uma meneira que aprendi a ver, minha mãe sempre foi a melhor pessoa do mundo. A outra visão das coisas, deixo para o passado enterrar, assim como todas as outras coisas ruins que vivi, e que me ensinaram, diferente dos livros de catequese, a perdoar não somente os erros, mas ver com olhos diferentes os acertos de cada um e dar a eles seu merecido valor...
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sexta-feira, 11 de julho de 2008

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Já não havia mais tempo para nada. As coisas empacotadas, escondidas em caixas novas de papelão pardo fechadas com fita adesiva em excesso, como se fosse para impossibilitar a sua reabertura, pouco diziam.  Uma história, uma vida acondicionada entre metros plástico bolha, diversão barata para as crianças sem lar jogadas na calçada. Já não importava o destino das caixas, dos metros de plástico bolha, já não importava o conteúdo delas. No novo espaço já não há espaço para as novas caixas e suas velhas histórias embaladas.  E era assim que eles me empurravam para longe, me distanciavam de suas vidas como se fosse uma visita indesejada.
Olhando agora para as caixas encostadas na parede nova, as caixas que já foram novas, agora apenas velhas caixas tomando um espaço onde não há espaço numa outra vida, lembro do dia em que parti com quase nada. 
Para nunca mais voltar.
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terça-feira, 1 de julho de 2008

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Por vezes me surpreende essa saudade, essa coisa imensa que já não faço questão de controlar. Mas para meu dia funcionar, procuro me concentrar nas coisas imediatas e que precisam de uma fluidez de pensamentos. Nem sempre consigo. Enquanto sozinho digito um texto curto com minhas mãos geladas nessa manhã de frio, a fluidez do meu pensamento está, obviamente, no objeto da minha saudade. E apesar dos meus mais de trinta anos, preciso crescer muito ainda para entender como algumas coisas acontecem. O crescimento virá, e espero vê-la crescer também,  e sempre que precisar contar com minha mão carinhosa e amiga. Já não sou mais sozinho, apesar de ter minha própria vida. Já não planejo mais minhas partidas e chegadas individualmente. Já não uso mais "eu". Agora, em minha vida, há sempre esse "nós", e essa falta absurda que ela faz quando não está perto. 
Não sei se ele pensa em mim da mesma forma, mas já não fantasio a pessoa perfeita que se importa, preocupa e lembra de mim o tempo todo, pois sei que isso não é possível. Sonho com a pessoa real, humana, com medos, valores, idéias, princípios, limitações. Basta à mim saber que amo-a, que isso cresce a cada minuto, e que ainda que eu nunca tivesse idealizado alguém nessa vida, sinto como se ele fosse essa pessoa, esse sonho que vivo acordado em meio ao dia cheio de obrigações, preocupações, frustrações e novas perspectivas. Sinto uma coisa real, não um engano. Sinto a segurança que tenho em fazer o melhor que posso por nós. Sonho com uma pessoa imperfeita, e sinto que posso suportar as dores que ela vier a causar, e ainda assim continuar a olhá-la da mesma forma, com o mesmo carinho, com a mesma paixão de sempre.
Sonho com essa pessoa o tempo todo, preocupo-me com ela o tempo todo, mas de uma forma carinhosa, como o amigo que quer vê-la sempre bem e feliz. Sonho como quem sonha um sonho bom, e não uma idéia distante, etérea e intangível. Sonho, hoje, com essa vida que não escolhi, mas que à mim pertence porque aceitei-a, porque lutei para que chegasse até aqui.
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sábado, 28 de junho de 2008

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Deitado no pequeno sofá de dois lugares, encolhido sob um cobertor azul, não assisto um programa qualquer que passa na TV. Atenção fraca às coisas em volta, calor, frio, saudade. Minha falta de ação me põe triste, essa tristeza mínima causada pelo tédio. "Meu dia foi bom, pode a noite descer. A noite com seus sortilégios. E encontrará lavrado o campo, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar". E sim, lembrei, aliás, como usualmente lembro, de uma pequena e bela poesia para fechar um dia que, a despeito da falta de ação e do tédio instalado de umas horas para cá, foi fantástico.  Reclamar do dia de hoje seria desonesto comigo mesmo, portanto, agradeço. Que o tédio que tenho agora sirva apenas para mostrar o quanto eu sinto a falta de algo que, para mim, tem importância soberana.
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Elas chegaram, enfim. Não tinha certeza se viriam, mas era de se esperar. O céu azul de quase inverno, friozinho calmo, sol gostoso... agora as nuvens grayscale cobrem quase tudo. Vento empurra folhas para o canto morto da calçada, enquanto, da janela aberta, olho o movimento. Algumas folhas são maiores do que as outras, e dão ao vento mais trabalho para arrastá-las. Implacável, a força invisível vence os corpos inertes que, agora, juntam-se aos outros depositados no jazigo, visivelmente com maior facilidade.
Um novo vento sopra, uma nova e diferente força invisível, em direção oposta, desconstrói a obra de instantes atrás. Agora, olhos fixos no tempo, essa outra força invisível que nos empurra também ao jazigo e cobra sua taxa. O tempo que permaneci parado é um tempo que jamais retornará. Não posso permanecer assim, janela aberta, olhando as nuvens cinza que se unem para encobrir o céu azul. Não quero mais momentos a olhar as folhas mortas empurradas ao jazigo.
Minha vida necessita de mais sorrisos.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

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Não tenho a intenção de escrever um diário, nem algo parecido. Se conto as impressões que tenho acerca de certos fatos e sentimentos, ora porque identifico-me com eles, ora porque são parte integrante de uma vida que me acompanha, é porque sinto a necessidade de compartilhar com um ente imaginário todos os meus receios, meus medos, minhas angústias... também minha felicidade, meus momentos doces, horas em que aprendo que o mundo e a vida não são apenas um obstáculo, mas razões díspares e complementares para seguir o caminho que imaginamos. 
Imagino hoje, diferente de antes, um caminho, e aponto meus pés para a direção em que quero chegar. Pequenas mãos ora seguram minhas mãos e me confortam, ora se afastam e me angustiam. Dou, de mim, o melhor que tenho, o melhor que posso fazer e mais, mas estou pronto para todas as adversidades que essa tal vida, que a tantos presenteia com bons dias, bons sonhos, estabilidade e dignidade, possa vir a me trazer. E se digo que estou pronto para as adversidades, isso não quer, de forma alguma, dizer que estou pronto para aceitá-las. Estou pronto para lutar, enquanto houver em mim a força para levantar e andar em frente.
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quarta-feira, 25 de junho de 2008

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Algumas coisas, ainda que repetidas, mudam de forma, de cor, de cheiro, de sabor. Apenas alguns poucos são capazes de perceber a sutil mudança. Apenas alguns poucos podem carregar a felicidade de saber que, embora muitos não notem, o brilho nos olhos ainda mantém viva a vontade de continuar atento, identificando e sentindo cada uma dessas doces variáveis. Sei que estou vivo, pois não parei de notar, se não nos outros, notar em mim essas fantásticas mudanças que me trazem uma nova alegria de tentar.
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Faz um bom tempo que não escrevo, e talvez não seja hoje o dia em que voltarei escrever. Apesar da vontade de contar ao mundo algumas coisas, talvez o mundo não esteja interessado em me ouvir. E é só.
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