sexta-feira, 18 de julho de 2008

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Tinha tudo pra dar errado, e deu. Sem esperar, sentiu-se aprisionada pelo fruto do descuido. Nos meses que seguiram-se, amaldiçoava cada enjôo, cada nova pequena transformação. "Milagre da vida", diziam os outros, mas para ela era assim apenas porque o milagre não era com eles. Sem saber, daria vida à uma vida infeliz, carregada com uma carga de mágoas ímpares. Sem saber, daria raiva e descrédito a um minúsculo inocente que, se porventura Deus tivesse eliminado, não necessitaria atravessar uma história de provações. Mas, como costumavam e ainda costumam dizer, Ele escreve certo por linhas tortas. Mais um clichê, repetido de maneira hipócrita por aqueles que rezam para pedir perdão por erros que ainda não cometeram.
Cresceu sem acreditar Nele, sem respeitar suas leis e seguir seus conselhos. Obrigado, ia à catequese e, aprendia folheando o pequeno livro laranja, que sofremos uma lavagem cerebral para crer e temer algo que desconhecemos. Aprendia que era preciso, acima de tudo, perdoar, aceitar e, se preciso fosse, oferecer a outra face. Mas até aquela altura já apanhara demais.
Num domingo morto, sentou-se à beira da cama da avó. De frente para a janela do sétimo andar, escutou, embora parecesse a ela distante, com atenção quase solene. Não precisava de uma segunda opinião. Bastava-lhe o discurso entrecortado por lágrimas honestas, causadas pelas palavras cruéis e desalentadoras. Aos poucos principiava entender sua vida, os castigos, as ausências, o olhar sempre atravessado, o afeto descoberto aos poucos e aos trancos. Procurava entender a falta de sorrisos, a mão distante, presente apenas para os outros. Procurava saber cada detalhe, juntava os cacos, montava o quebra-cabeça aos poucos, como se fosse um castigo obrigatório para poder compreender a si mesmo. Mas não entendia como era possível que ela aceitasse de novo aquele que tanta dor e decepção causou, e fosse simplesmente incapaz de olhar-me com reais olhos de mãe. E, apesar de tudo, depois de conhecer suas razões, mesmo sem aceitá-las, ainda sou capaz de olhá-la não com raiva, mas com os olhos de quem cresceu para entender que o que vale é resgatar as horas em que tudo parecia perfeito, ou que tudo realmente era perfeito. Ainda lembro da tarde gelada, do presente escondido, das roupas reformadas, dos caderninhos feitos de propaganda política... ainda lembro e sempre lembrarei dos momentos em que fui aceito como um filho, e não como um momento ruim que quase tirou-lhe a vida. Sei que jamais poderei pedir desculpas por ter nascido, e para que nada ruim tivesse acontecido eu deveria não existir. E se assim fosse, talvez a vida deles fosse diferente, fosse, quem sabe, melhor. Se posso hoje desculpar-me por algo, é apenas pelo fato de, infelizmente, não poder aceitar a covardia alheia, a inércia que permite que as coisas ruins permaneçam da forma como estão. Cresci de uma forma bruta, e estou aprendendo, com o tempo, a entender as limitações, minhas e dos outros, e conviver com elas sem tratá-las com desprezo, sem tratá-las como fraquezas. De uma meneira que aprendi a ver, minha mãe sempre foi a melhor pessoa do mundo. A outra visão das coisas, deixo para o passado enterrar, assim como todas as outras coisas ruins que vivi, e que me ensinaram, diferente dos livros de catequese, a perdoar não somente os erros, mas ver com olhos diferentes os acertos de cada um e dar a eles seu merecido valor...
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