domingo, 20 de julho de 2008

Acordei e vi as coisas velhas na parede morta. E não era um sonho. Apesar da casa nova, reformada, ao abrir os olhos recordei-me daquele dia em que minha mãe entrou na sala quase sem móveis, apenas uns 3 banquinhos, um tapete velho e uma TV pequenina em preto e branco. Naqueles dias de amargo inverno não havia banho quente e a TV pequenina nada mostrava. Era mais uma semana sem dinheiro, sem luz, sem saber quando e se meu pai voltaria para casa. Daquele dia recordo-me de absolutamente tudo, mas a coisa ainda mais marcante aos olhos da criança de 6 anos de idade foram os olhos da mãe. Estávamos meu irmão e eu recortando figuras de jornais velhos, as mãos sujas de tinta preta. Minha mãe entrou bem devagar, sem fazer barulho, como se escondesse alguma coisa. Olhou-nos e sorriu, e embora pareça para mim estranho, tal e qual o estranho que me tornei para ela com o passar dos anos, nunca mais a vi sorrir aquele mesmo sorriso daquele dia frio. Naquela tarde não havia apenas um brilho diferente, havia também calor nos olhos dela. Disse-nos boa tarde ao entrar, e pediu para que sentássemos. Foi só então que percebi como meu corpo tremia de frio. Minha mãe tirou seu próprio casaco e colocou sobre meus ombros para aliviar os tremores. Pausadamente, revelou uma caixinha que trazia escondida às costas. Eu já sabia ler um pouco, mas a mão dela cobria parcialmente as letras impressas na embalagem, de maneira que não me atrevi a tentar adivinhar o que era a surpresa. Pediu então ao meu irmão, dois anos mais velho, para que fosse à cozinha apanhar duas canecas d´água. Em pouco tempo ele retornou, as duas mãos ocupadas por duas canecas de barro, dadas à minha mãe pela minha avó paterna, uma compensação pela noite em que meu pai entrou em casa aos berros e quebrou quase tudo o que encontrou pela frente. Assim como os poucos móveis, foram destruídas também nossas lancheiras e as pequenas garrafas térmicas que usávamos para carregar o chá de capim limão que minha mãe fazia para nós nos dias de frio. Dias depois desse incidente, lembro de minha mãe chorando agarrada à máquina de costura, a única coisa que ela conseguiu salvar quando meu pai novamente apareceu, dessa vez com dois amigos e uma kombi. Entraram, carregaram quase tudo o que tínhamos e levaram embora. Deixaram a máquina de costura, talvez por pena, talvez porque não encontrariam local em que pudessem vendê-la a um bom preço. A TV pequenina também ficou. Pensaram que ela estava estragada, logo, não faria sentido carregar "mais aquele lixo". "Fique com essa merda", disse, abrindo uma lata de cerveja cara. E então deu as costas, e só voltou a aparecer muitos anos depois, como se nada houvesse acontecido, como se as cicatrizes do passado fossem invisíveis no presente. Ele não havia quebrado somente nossa casa, nossas coisas. Em mim ele havia destruído permanentemente um elo de paternidade, de carinho, respeito e confiança. Nas reuniões de pais e mestres da escola, nunca tive pai. Apenas minha mãe comparecia. Minha mãe era - ainda é - mãe e pai. Era ela que me arrumava para as festinhas em casa de colegas da escola, sempre com roupas emprestadas de algum vizinho e ajustadas às pressas na máquina de costura. Sim, era convidado, mas nunca pude levar presentes. Saía antes que começassem a abrir os pacotes. Sempre fiz parte dessas reuniões, sempre estive com eles, mas jamais fui um deles. Ao sair, sempre cedo demais, tinha sempre guardadas na meia duas fichas telefônicas, e era com elas que eu ligava para uma vizinha que, da janela, gritava para avisar minha mãe. Ela largava o que fosse e vinha ao meu encontro. Fazia o mesmo com o meu irmão. Minha mãe sempre foi mãe, a melhor mãe do mundo, sempre esteve acima de qualquer coisa. Meu pai nunca foi ninguém, e quando foi alguma coisa, essa coisa era uma sombra que rondava em volta, faminta. Um fantasma do passado todavia presente, apesar de agora a ausência ser minha. Não lembro dele quando acordo, nem quando vou dormir. Hoje, excepcionalmente, as memórias resgatadas apresentam-se apenas para introduzir o que tenho a dizer. Para ajudar meu irmão, fui à cozinha e, assim como ele, enchi d´água uma caneca, mas não uma caneca de barro, e sim uma velha caneca de alumínio, ainda amassada depois do dia do estrago. Minha mãe sempre disse que a água fica mais fresca quando colocada em canecas de alumínio. Enfim, estávamos nós três ali reunidos, uma expectativa solene, as últimas horas do dia e com elas o despertar de um sonho. Minha mãe revelou a caixinha toda e, como os olhos dela, nossos olhos brilharam e também se encheram de calor. Foram momentos extremamente doces, um lapso de alegria numa vida amarga. Quietos e felizes, contemplamos essas horas. Sabíamos que, como os doces da pequena caixa, as horas doces terminariam e dariam vez à novas e mais duras horas amargas. Não sei ainda a razão disso, mas daquele dia em diante soube que estava preparado para qualquer coisa que me acontecesse. Lembro da minha mãe cozinhando arroz numa leiteira colocada sobre uma lata com álcool, à luz de duas velas. O momento doce não terminara, como pensávamos, quando acabaram os doces da caixa. Apesar do gosto do chocolate ser substituído pelo sal do arroz, a única comida naquela janta, aquele doce mantinha-se em nossos olhos, em nosso pensamento. Quando meu pai novamente retornou, desempregado e doente, não o via mais como pai. Como se fosse um estranho que buscava abrigo, o acolhemos. Em verdade, eles o acolheram. Assim que pude, que tive forças para me desprender de tudo, fui embora. Na mochila pequena, quase nada. Na cabeça, lembrança das horas doces passadas com minha mãe e meu irmão naquele dia frio em que brincávamos de mãos sujas recortando figuras de jornais. Ao passar pela banca em frente à padaria, vi uma caixinha igual à que minha mãe nos trouxe naquele dia. Eu acabara de abandonar minha própria família, por ter comigo uma mágoa que não era compatível com os sonhos deles de ter uma família novamente. Quando saí, nosso "hóspede" apenas disse, sem me olhar nos olhos, que "é possível ter uma família com apenas um casal de filhos, mas nunca sem um pai." Antes mesmo disso, por mais de uma vez chegou a dizer que não tinha filhos. Nunca pude suportar a dor não de não ter um pai, mas a decepção de nunca ser aceito como filho. Agora eu tinha uma irmã que, apesar de muito pequena, chorou na hora em que me despedi. Ela não conseguia entender a razão de eu estar saindo para nunca mais voltar. E talvez nunca entenda... Entreguei o dinheiro ao senhor da banca, apanhei a caixinha de cima da pilha de várias outras caixinhas iguais e fui embora. No meio do caminho para qualquer lugar que fosse, uma mãe com duas crianças pedia dinheiro, comida ou qualquer coisa. Abri a mochila e entreguei para ela a caixinha, e pude ver também felicidade nos olhos deles. Nunca mais os vi. Nunca mais fiz o mesmo caminho novamente. Hoje, quando acordo e dou de frente com as mesmas paredes daqueles dias, paredes iguais, apesar de novas, lembro que agora sou eu o estranho, o que saiu sem previsão de retorno. Lembro das canecas de barro e dos jornais, da caixa de Amanditas, do brilho nos olhos da minha mãe. Lembro das horas doces. Sei que não há no mundo Amanditas suficientes para trazer de volta aquela tarde, aquelas horas. E sei também que, enquanto as horas passam, estou cada vez mais longe, apesar da força que faço para voltar.

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